A tokenização já passou de US$ 25 bi
Se o fundo tokenizado de Treasuries da BlackRock saiu de US$ 40 milhões para US$ 2,5 bilhões em menos de dois anos, o ponto não é mais perguntar se a tokenização vai chegar. Ela já chegou.
O que parecia uma borda experimental do mercado cripto virou um projeto operacional de alguns dos maiores nomes de Wall Street. Em março de 2026, os ativos do mundo real tokenizados em blockchains públicas passaram de US$ 25 bilhões, algo na faixa de R$ 125 bilhões, depois de saírem de US$ 6,4 bilhões em um ano. Não se trata só de Treasuries americanos. Seis classes de ativos já romperam individualmente a marca de US$ 1 bilhão: Treasuries, commodities, crédito privado, fundos alternativos institucionais, dívida corporativa e dívida soberana fora dos EUA.
Para o investidor pessoa física, isso pode soar distante. Não é. Quando a infraestrutura de liquidação muda, muda também quem captura margem, quem fica com a taxa e quem continua pagando por fricções que a tecnologia já consegue remover.
O custo invisível que a blockchain expõe
No sistema tradicional, a liquidação de títulos costuma levar dois dias úteis, no conhecido T+2. Nesse intervalo, clearing houses, custodiante, agentes de transferência e equipes de reconciliação fazem parte do processo, e cada camada cobra por isso. Segundo estimativa da Boston Consulting Group, a tokenização em escala pode economizar US$ 20 bilhões por ano em custos globais de clearing e settlement, algo perto de R$ 100 bilhões anuais.
O argumento central não é ideológico. É operacional. Um título tokenizado pode ser liquidado em minutos, em alguns casos em segundos, com funcionamento contínuo e menos intermediários no caminho. Em vez de esperar a infraestrutura bancária tradicional abrir, fechar, reconciliar e transferir, o ativo circula em uma camada tecnológica que opera 24 horas por dia.
É isso que torna a história desconfortável para corretoras tradicionais. Durante anos, parte da rentabilidade do setor veio justamente da custódia, da transferência e da demora institucionalizada. Se a nova infraestrutura reduz esse atrito, ela não destrói apenas um custo. Ela pressiona um modelo inteiro de cobrança.
BlackRock, Franklin e JPMorgan já trataram isso como produção
O caso mais simbólico é o BUIDL, da BlackRock, tokenizado pela Securitize. O fundo já está em nove blockchains, incluindo Ethereum, Solana e Avalanche, paga rendimento diário e passou a ser aceito como colateral de negociação na Binance. Franklin Templeton também levou seu fundo de mercado monetário do governo americano para blockchains públicas, abrindo espaço para uso de Treasuries tokenizados como colateral 24/7. A JPMorgan, por sua vez, já moveu sua Tokenized Collateral Network da fase de piloto para operação com grandes clientes institucionais.
Nada disso está acontecendo porque essas casas viraram evangelistas da descentralização. O incentivo é muito mais simples: se a blockchain corta etapas e reduz custo, ela melhora eficiência para quem opera em escala. E quem já controla o relacionamento com o cliente tenta capturar essa eficiência antes que ela escorra para o investidor final.
Essa é a parte menos romântica da tese. A tokenização não elimina automaticamente gatekeepers. Em muitos casos, ela apenas troca uns por outros. O banco que antes ganhava no encadeamento da burocracia agora quer ganhar dominando a nova via rápida.
A clareza regulatória que faltava começou a aparecer
Em janeiro de 2026, a Divisão de Finanças Corporativas da SEC publicou uma declaração conjunta esclarecendo que as leis federais de valores mobiliários continuam valendo para ativos tokenizados. Em outras palavras, o fato de o registro estar numa blockchain, e não num livro contábil tradicional, não muda o perímetro regulatório. A comissária Hester Peirce destacou benefícios potenciais como eficiência operacional, liquidação quase instantânea, maior liquidez e ampliação do acesso.
Isso não equivale a um cheque em branco regulatório, mas remove parte da ambiguidade que segurava capital institucional. O mercado precisava menos de slogans e mais de previsibilidade jurídica. Sem isso, nenhum gestor relevante iria mover infraestrutura séria para uma nova arquitetura.
É nesse ponto que entram as projeções. A McKinsey trabalha com um mercado tokenizado de US$ 2 trilhões até 2030, com cenários otimistas chegando a US$ 4 trilhões. A BCG, em sua atualização de 2025, foi além: US$ 9,4 trilhões em 2030 e US$ 19 trilhões em 2033. São projeções, não destino garantido. Ainda assim, a direção do movimento já é difícil de ignorar.
O investidor de varejo ainda está vendo a parte errada da história
Boa parte do investidor pessoa física continua olhando para cripto como se o principal tema fosse a próxima alta especulativa de alguma moeda. Enquanto isso, a mudança mais relevante acontece na infraestrutura dos ativos tradicionais. Não é o memecoin que ameaça a corretora. É a possibilidade de liquidação direta, contínua e mais barata dos ativos que ela já distribui.
O próprio texto-base do mercado mostra o descompasso. As ofertas de Treasuries tokenizados passaram de 35 para mais de 50 em um ano, com emissores priorizando formação de capital, em 53,8% dos casos, mais do que liquidez. Ao mesmo tempo, 88% da oferta de stablecoins lastreadas em ativos do mundo real ainda está fora de sistemas DeFi. A infraestrutura existe, mas o acesso amplo ainda não.
E não há grande incentivo para acelerar essa transição em favor do varejo. Cada ano em que a tokenização chega primeiro ao institucional e só depois ao cliente comum é mais um ano em que alguém segue cobrando pelo antigo atrito. Isso ajuda a explicar por que temas como custos estruturais que corroem o retorno do investidor continuam tão relevantes.
A pergunta não é se vai existir, mas quem fica com o ganho
O ponto decisivo não é celebrar a tokenização como salvação nem descartá-la como hype cripto com roupa nova. É entender para onde vai a economia de custo quando a infraestrutura melhora. Se o ativo liquida mais rápido, com menos camadas e menos reconciliação, parte do valor some das mãos dos intermediários. A disputa agora é sobre quem captura essa diferença.
BlackRock, Franklin Templeton e Goldman Sachs parecem determinados a não perder esse espaço. O investidor de varejo, porém, ainda corre o risco de entrar tarde, pagando por uma estrutura velha enquanto os gigantes migram para a nova. Em um cenário no qual estratégias alternativas e renda fixa on-chain começam a se aproximar do investidor comum, como já sugerem temas ligados a fundos alternativos e liquidez restrita e o avanço de estratégias fora dos índices tradicionais, a questão prática fica simples: o ganho de eficiência vai cair na sua carteira ou continuar preso no modelo da sua corretora?
US$ 25 bilhões on-chain não são promessa. São recibo.
Fontes e Referências
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