55% dos executivos admitem: demitir por causa da IA foi erro
Mais da metade dos executivos que demitiram funcionários para dar lugar à inteligência artificial admitem que cometeram um erro. Não é manchete especulativa: é o que revelou uma pesquisa da Orgvue com 1.163 líderes C-level e executivos sêniors nos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Irlanda, Austrália e Sudeste Asiático. Dos 39% que já haviam eliminado cargos por causa da IA, 55% reconhecem que essas decisões foram erros. Não “aprendizados”. Erros.
O dado que mais incomoda: um em cada quatro desses mesmos líderes admitiu que não sabia quais funções poderiam de fato ser beneficiadas pela IA antes de começar os cortes. No Brasil, onde iFood demitiu 355 pessoas e o Nubank eliminou cerca de 500 posições em movimentos de reestruturação, a ansiedade em torno do tema é ainda mais aguda. O setor de tecnologia global cortou 245 mil vagas só em 2025, com 55 mil explicitamente atribuídas à inteligência artificial.
O mito que lançou uma onda de demissões
A narrativa era irresistível. Agentes de IA cuidariam do atendimento ao cliente, escreveriam relatórios, fariam triagem de chamados, tudo mais rápido, mais barato e sem pausa para almoço. Empresas correram para provar que eram “AI-first”. Comunicados de imprensa celebravam redução de quadro como se fosse métrica de inovação.
A Klarna virou o caso emblemático. A fintech sueca substituiu cerca de 700 atendentes por um assistente da OpenAI, alegando que a IA resolvia dois terços de todas as interações com clientes e economizava US$ 10 milhões por ano. Wall Street aplaudiu. O próprio CEO, Sebastian Siemiatkowski, depois reconheceu publicamente que foram longe demais. A qualidade do atendimento despencou. Clientes relataram respostas robóticas e resolução inadequada de problemas. A Klarna agora está recontratando atendentes humanos em um modelo remoto e flexível, reconstruindo o que desmontou.
Para quem acompanha o mercado brasileiro, o paralelo é inevitável. O iFood, por exemplo, já usa IA para responder 83% das dúvidas internas de RH, mas as demissões que promoveu em áreas de produto e tecnologia refletem a mesma lógica apressada: cortar primeiro, medir depois. A StartSe chegou a cunhar o termo “empregócidio” para descrever essa onda.
A onda silenciosa de recontratação
O Gartner prevê que, até 2027, 50% das organizações que reduziram equipes de atendimento ao cliente por causa da IA vão recontratar profissionais para funções semelhantes, muitas vezes com títulos de cargo diferentes. Não se trata de uma previsão marginal. É uma das consultorias de pesquisa empresarial mais citadas do mundo dizendo que metade desses cortes será revertida.
A razão é dolorosamente simples: a IA ainda não é madura o suficiente para substituir o julgamento, a empatia e o raciocínio contextual que seres humanos trazem para tarefas complexas. Apenas um quinto dos líderes de atendimento ao cliente de fato reduziu equipes por causa da IA. A maioria das demissões que viraram manchete em 2025 foi motivada por pressões econômicas mais amplas, não porque a IA estava performando bem o suficiente para justificar os cortes.
A IBM oferece outro exemplo revelador. A empresa demitiu aproximadamente 8 mil funcionários em 2023 e substituiu boa parte da divisão de RH por uma ferramenta chamada AskHR. Quando o sistema não conseguiu lidar com tarefas que exigiam empatia ou nuance, a IBM teve que trazer humanos de volta. O CEO Arvind Krishna observou depois que o número total de funcionários havia, na verdade, aumentado.
A aposta de US$ 200 bilhões construída sobre especulação
O mercado de IA agencial que impulsiona essas decisões de força de trabalho está, ele próprio, sobre fundações frágeis. O BCG estima que a IA agencial pode gerar até US$ 200 bilhões em novo valor para provedores de serviços de tecnologia. Só que os dados do próprio Gartner pintam um quadro muito diferente sobre a prontidão de execução.
Segundo uma pesquisa do Gartner com 3.412 respondentes, apenas 19% das organizações haviam feito investimentos significativos em IA agencial. Outros 42% fizeram apostas conservadoras e 31% ainda estavam em modo “esperar para ver”. O mais crítico: o Gartner prevê que mais de 40% dos projetos de IA agencial serão cancelados até o fim de 2027 por custos crescentes, valor de negócio incerto ou controles de risco inadequados.
O cenário dos fornecedores é igualmente inflado. O Gartner estima que apenas cerca de 130 das milhares de empresas que vendem “IA agencial” são legítimas. As demais praticam o que analistas chamam de “agent washing”: rebatizam chatbots, ferramentas de RPA e automação básica como IA agencial sem nenhuma capacidade real de decisão autônoma.
Ou seja: empresas estão demitindo pessoas com base na promessa de uma tecnologia cujos projetos têm 40% de chance de fracasso, a maioria dos fornecedores está fingindo, e a maior parte das organizações nem sequer fez investimentos sérios ainda.
O que isso significa para o Brasil
No contexto brasileiro, o cenário ganha contornos próprios. A Organização Internacional do Trabalho estima que 2,38% dos empregos no país estão em risco de automação total, enquanto 21,58% são uma “grande incógnita”. Empregadores brasileiros já estão dispostos a pagar 46% a mais por profissionais com habilidades em IA, segundo pesquisa da Access Partnership. Porém, apenas 31% dos trabalhadores recebem treinamento formal na tecnologia.
O Fórum Econômico Mundial projeta que a integração de IA e automação vai transformar 22% das ocupações globais até 2030, com saldo positivo de 78 milhões de novos postos. Acontece que esse saldo positivo só se materializa quando empresas investem em requalificação, não em demissão.
O que as empresas que acertam estão fazendo
As organizações que vão liderar essa transição não são as que eliminam humanos mais rápido. São as que descobrem onde a IA amplifica a capacidade humana em vez de substituí-la. Na prática, isso significa investir em ferramentas de IA para tarefas repetitivas e de baixo julgamento (entrada de dados, triagem inicial de chamados, resumo de documentos) e manter humanos no circuito para tudo que exige contexto, criatividade ou empatia.
A abordagem corrigida da Klarna é instrutiva: a IA cuida de consultas simples, enquanto humanos se concentram em situações que exigem nuance e raciocínio complexo. Isso não é uma falha da IA. É uma compreensão madura de onde a tecnologia realmente funciona hoje.
Os executivos que demitiram primeiro e mediram depois agora estão silenciosamente preenchendo os mesmos cargos que eliminaram. A questão não é se a IA vai transformar o trabalho. Vai. A questão é se as decisões de força de trabalho serão baseadas em resultados comprovados ou em uma projeção de US$ 200 bilhões que seus próprios analistas dizem ser 40% hype.
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Fontes e Referências
- Orgvue — 55% of 1163 C-suite leaders admit wrong AI layoff decisions
- Gartner — 50% will rehire by 2027
- Gartner — 40% agentic AI projects canceled by 2027
- Fast Company/Klarna — Klarna replaced 700 workers, CEO admitted they went too far
- BCG — $200B agentic AI market
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